Alfa & Ómega: Demolidas memórias

11 12 2008

{α}

Da janela vejo a casa cair, bocado a bocado.

Como que sentindo as paredes, num último suspiro de existência, gritarem aos céus tudo o que dentro delas aconteceu, a minha alma elevou-se e projectei-me para o passado…

Uma caixinha de lápis de metal contendo chocolates Ferrero Rocher no interior balançava na minha mão. Já tinha comido um, mas queria outro. E, além disso, queria voltar a passar pelo meio das canas e das hortas, onde passavam gatos e haviam caganitas de ovelha no chão de terra batida. Ratos talvez, mas o cheiro predominante era de galinhas, bem como o próprio ruído.

O caminho parecia infinito e incontáveis vezes sonhei eu que ele dava para uma praia sem fim de ondas serenas. Porém, dava apenas acesso à rua de baixo, a 30 metros do começo do caminho.

Mas era junto a esse canavial mal-cheiroso que estava uma coisa cor de laranja sujo e a descamar que não me deixava ter a paisagem a que tinha direito. Horrivel, velha, empoirada e mal habitada, assim a definia inconscientemente. Gatos aqui e ali, velhotes a entrar e a sair, miudos a correr e a gritar. Gente nova a fazer obras no rés-do-chão para sairem dali em três semanas sem realmente saberem ao que tinham vindo.

Enfim, entrara lá, uma vez, onde, mais tarde, viria a estar a caixinha de metal com chocolates para me foi entregue. Coisa, antiga e com aroma a húmido, mais nada…

Agora vejo a cidade em pleno e todas as suas luzes tremeluzentes lá, ao fundo. Mas nunca mais verei o velhote a vir à janela da cozinha, em frente.

Todavia, para quê?

Bom, bom, seriam as histórias que as paredes contariam se não se estivessem a calar para sempre…

A casa caiu.

{Ω}

Nunca pensei ser capaz de voltar a escrever Alfa & Ómega.

Recomecemos devagar.





este é o meu segredo

7 12 2008

esta é uma nova fase da minha vida, eu sei. mas não posso recomeçar do zero, eu sei, pois cada um traz no seu corpo marcas, cicatrizes e rugas de outro tempo. eu sei, mas por outro lado gostava de não ter conhecimento disto.

ainda salto da cadeira quando tu entras no chat. ainda te recordo quando chamo alguém pelo teu nome. saberei para sempre o sabor do teu hálito e a textura os teus lábios. por vezes, tenho receio de phalar e escrever sobre ti. termino os pensamentos em que tu abundas com um: “és mesmo patética!”.

sei contar o tempo que passou e ainda mais surreal, é amar quem tu phoste e não quem tu és neste momento.

aquele rapazinho meigo, ainda entra nos meus sonhos quer seja só a imagem do seu rosto, quer seja a cantar com um ramo de rosas, ajoelhado, perante mim, numa estação de comboios.

patética.

phoste o primeiro que adocicou os meus lábios e phace, phoste tu que me phizeste despertar a escrita e todos os sentimentos. Tu rapazinho que phoste e já não és…

Entras-te na minha genética e modiphicaste cada cadeia de DNA com esse amor romântico e rídiculo.

procuro-te numa nova phace, sigo pistas e semelhanças e não te encontro.

tenho medo de te ter perdido e nunca mais te encontrar por esses caminhos da vida.

agora devolve-me a minha escrita e a vontade de exprimir o mundo que me rodeia.

serás sempre uma referência sobre o que é amar.

porque tu não és um rapazinho, mas sim uma personificação do amor.





I’m Gonna Find Another You

1 12 2008

Elas eram três… Eles três eram…

Um morreu no hospital. Outro sem voz ficou. O seguinte, nunca mais pode andar pelo seu próprio pé. Donos de casamentos duradouros.

Uma ficou presa no tempo, repetindo a cada dez minutos as mesmas coisas, como um disco riscado. Outra ficou com uma cicatriz na face. A seguinte ilesa saiu. Estas mulheres, adultas e pré-idosas conheciam-se desde infância. Uma era amante do marido da outra. A terceira, sem memória, ficou viúva.

… Dirigiam-se para um baile.

“Onde estou? O meu marido? Ele está bem?”

(…)

Passados 10 minutos.

“Onde estou? O meu marido está bem?”

Anatomia de Grey.